segunda-feira, 9 de abril de 2007

Alberta

Flap, flap, flap, flap, flap.” Aquele som, simultaneamente irritante e excitante, fazia-a ranger os dentes. Imaginava-se a ultrapassar todas as limitações, contra as quais não podia lutar e gozava, de olhar alheado, a cena que nunca iria ter lugar.
Aquele pescoço longo, aquele mover de cabeça gracioso, o delicado andar… Aquele espectáculo que parecia montado para si, provocante, desafiador… Todos os dias se submetia, exaltada e impotente, ao desfile da graciosa criatura que mesmo durante o seu sono continuava a exibir-se, incólume, soberba, inalcançável.
Começou a perder o apetite, a passar o tempo em vigília, a desinteressar-se de tudo o que não fosse a contemplação daquela que tão febrilmente desejava. Os olhos encheram-se-lhe de um brilho delirante e passado pouco tempo, nada mais os habitava senão o reflexo da sua obsessão. Era feliz nesta infelicidade.
Um dia, porém, o que até então parecera completamente impossível, aconteceu. Alberta nem conseguia acreditar no que os seus olhos lhe diziam! A porta, a mesma que durante dias a fio tinha estado sistematicamente fechada, estava a ser aberta, precisamente por quem lhe tinha impedido o encontro com o seu destino.
As mãos tremiam-me enquanto segurava no puxador da porta, consciente, mas não segura do que estava a fazer, do que iria, certamente, acontecer. Repeti, para dissipar-lhe as dúvidas – Alberta, sai… podes ir – e engoli em seco.
Hesitante e incrédula primeiro, entusiasmada depois, Alberta atravessou a ombreira da porta e parou do lado de lá, enchendo o peito de ar livre e coragem. Tinha chegado a hora por que tanto ansiara e temera. A sua desejada não tinha chegado ainda e restavam por isso a Alberta mais alguns minutos de paciente espera.
Flap, flap, flap, flap, flap.” Pela primeira vez, Alberta estava verdadeiramente feliz por ouvir aquele som. Semicerrou os olhos para olhar a fonte do som que vinha na sua direcção, com o sol a brilhar por trás. Sem deixar de fitar a etérea criatura, avançou sem pressa, quase imperceptivelmente, na sua direcção. Quando já estava estonteantemente perto, Alberta franqueou a distância de um salto, cravando os dentes no pescoço da pomba e caindo da varanda abaixo no impulso. Eu, não me movi, já não era o primeiro gato que perdia desta maneira.

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