segunda-feira, 9 de abril de 2007

Marli

Marli olha-se no espelho: os papos a amparar-lhe a queda do olhar, as linhas que divergem a partir dos cantos dos olhos, caminhos que levam a lado nenhum, a pele a amarelecer como um papel antigo, a linha dos lábios cada vez mais dura e cerrada, os pêlos a ensombrarem-lhe o rosto... trinta e oito anos. Continua: as mamas apontando o umbigo, a barriga gretada de ter albergado mais-um-no-mundo, a textura carregada de concavidades da sua pele…
Marli olha para lá do espelho. E não vê nada.
A trintona – é esse o seu estatuto – cobre com peças de roupa o corpo que transporta (há quanto tempo?) pela vida e com maquilhagem a cara que tem de apresentar lá fora. Sai.
Os sons da rua a introduzirem-se-lhe ouvidos acima e as silhuetas habitadas com que se cruza, quase conseguem dar-lhe a impressão de que participa na azáfama do quotidiano. Olha, indiferente, as montras iluminadas a berrarem “Feliz Natal”, tentando perceber qual é, exactamente, o sentimento que esta altura do ano invoca – se o alívio por não se ver arrastada pela furiosa demanda do presente certo, se o vazio por não ter ninguém a quem dá-lo.
Na paragem do autocarro, aguarda a viagem de todos os dias até a um minúsculo escritório num bloco de apartamentos dos anos setenta, no centro da cidade, onde passa seis horas seguidas a fingir orgasmos por telefone.
Hoje tem clientes como cães – a pressão da quadra não perdoa. Para além dos habituais que invariavelmente pedem o mesmo, recebe a chamada de um cliente novo. Mais para passar o tempo do que por curiosidade, mete conversa com ele. Casado há pouco tempo e com um filho a caminho, o homem quer ouvir por telefone os gemidos que já não ecoam em casa. Conta que nasceu na casa de banho de uma área de serviço da A1 e que o seu primeiro enxoval foi uma manta de papel higiénico. Diz que na irónica data de 25 de Dezembro faz vinte e dois anos que o entregaram à guarda de uma instituição social, de onde só saiu, por seus próprios meios, aos catorze.
Esgotadas as confissões, o homem reclama por aquilo ao que ligou. Marli, a quem saem mecanicamente os gemidos conforme a encomenda, não emite o mais mínimo som. No dia de Natal faz vinte e dois anos que numa viagem entre Lisboa e Porto parou numa área de serviço.

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